#09 - Ler nos torna humanos
O que o monstro de Frankenstein me ensinou sobre humanidade.
No dia 23 de abril celebramos o Dia do Livro. Esse objeto inanimado que nos dá vida e nos lembra do sentido dela. Que bom é ler uma parte de cada autor que escreve. Que bom, também, depois de lê-los, carregar essa parte pra sempre conosco.
No Dia do Livro deste ano, comemorei o hábito da leitura com a companhia de Mary Shelley, a autora do clássico gótico “Frankenstein”, escrito quando ela tinha apenas 18 anos.
A história, conhecida mundialmente, narra um cientista que dá vida a uma criatura, mas a rejeita, desencadeando uma tragédia sobre a responsabilidade científica e a rejeição social.
Conhecemos Victor Frankenstein, o cientista, dono de um ego sem fim e de ambições que o fazem perder o controle. Sua loucura e obsessão por provar valor e ser o maior dos maiores o leva a pensar o que ninguém jamais cogitou fazer antes: a partir de restos mortais de pessoas, criaria um novo ser humano.
Seus estudos e sua ganância deram certo. Ele se dedicou profundamente à criatura que conseguiu formar. Mas sua dedicação não foi prazerosa. Frankenstein nunca despejou sequer uma gota de amor enquanto dava vida à criatura que, no livro, não tem um nome e é apenas reforçada por adjetivos: coisa, aberração, demônio, monstro.
Concebida a partir da raiva e da loucura do seu criador, a criatura se torna uma aberração para Victor. Inconformado com tamanha monstruosidade, ele abandona seu “filho”, a quem ele se refere muitas vezes ao longo da história como um monstro.
O mais interessante é que Mary Shelley deixa em aberto: quem é o monstro afinal? Pois tanto Frankenstein quanto a criatura vivem monstruosidades diferentes.
O criador pode ser um cientista brilhante, mas é igualmente egocêntrico e irresponsável. Movido por suas emoções e pouco por suas razões, ele é impulsivo e mentalmente instável, se alimentando do caos. Ele também sofre com a culpa e o medo da sua criação, mergulhando em crises de delírio e, ainda que tenha família, ignora ela e seus amigos por conta da sua obsessão. Isso não é monstruoso?
Do outro lado, temos a criatura, que nasce e vive sem amor e afeto, conhecendo somente a rejeição, e, por isso, se torna selvagem e vingativa. É um monstro de nascença, com uma melancolia e solidão que nada na sua existência pode curá-lo e, assim, não consegue ser nada diferente disso. Ele busca afeto, mas só conhece a dor. E não reage à ela com pacificidade; externaliza de forma proporcional ao seu corpo e sua história: com selvageria.
O romance de Mary Shelley é considerado uma reflexão sobre os limites da ciência, mas é também um livro sobre humanidade, apesar de ser fantasioso e falar de um monstro que, na vida real, não poderia ser recriado de fato.
Para mim, Mary Shelley escreveu mais do isso. No livro, o monstro de Frankenstein representa algo muito especial quando está em um casebre depois de ter sido abandonado: o contato transformador que a leitura proporciona (até mesmo para um monstro).
Escondido no casebre anexo à casa da família de camponeses franceses na Alemanha, os De Lacey, ele passa a observar os costumes de cada um. O velho cego, o filho Felix e a filha Agatha são agentes importantes no processo de aprendizagem do monstro com os livros.
Observando ocultamente a família francesa, ele encontra um pouco de compreensão do mundo através das histórias que ouvia e, um dia, através dos livros com que teve contato, encontrados em uma maleta que apareceu em seu caminho quando andava pela floresta para trazer lenhas cortadas à família francesa.
“Uma noite, durante minha costumeira incursão ao bosque vizinho onde colhia meu alimento e apanhava lenha para meus protetores, encontrei no chão uma pequena mala de couro que continha várias peças de roupa e alguns livros. Apoderei-me desses objetos e levei-os para o casebre. Felizmente os livros eram escritos na língua cujos elementos já havia conseguido aprender.”
Os três livros eram: Paraíso Perdido (de John Milton), Vidas Paralelas (de Plutarco) e Os Sofrimentos do Jovem Werther (de Goethe).
Cada obra e autor citado não é somente uma coincidência. Mary Shelley atribuiu significados para eles na história da criatura, que passa a se educar e a entender a própria origem, moldando sua visão sobre si mesmo e sua relação com o criador.
Ao ler Paraíso Perdido, o monstro compara sua situação à de Adão e Satanás, questionando o abandono de seu criador, Victor Frankenstein. Com Werther, ele descobre os sentimentos humanos, principalmente o que é a tristeza e as relações familiares. E a influência da obra de Plutarco proporciona conhecimento sobre a história humana, a política e as contradições dos homens.
No trecho do capítulo XV, a criatura conta para Frankenstein:
"Mal posso descrever-lhe, Frankenstein, o efeito de tais livros. Apresentavam-me uma infinidade de novas imagens e sentimentos que, por vezes, me elevavam ao êxtase, porém, com mais freqüência, me lançavam na mais profunda depressão.”
O monstro demonstra na história uma grande conexão com a leitura e com tudo o que descobre através das páginas que lê. Sendo curioso e muito dócil quando tem um livro em mãos, ele começa a desvendar um pouco dos mistérios do mundo ao seu redor, que não foi apresentado a ele e, muito menos, não foi acolhedor com ele.
“À medida que ia lendo, porém, aplicava muita coisa a meus próprios sentimentos e condição. Achava-me parecido, e ao mesmo tempo estranhamente diferente dos seres sobre os quais lia e cuja conversa escutava. Solidarizava-me com eles, compreendia-os parcialmente, mas não tinha sua formação mental. Eu não dependia de ninguém nem era aparentado com quem quer que fosse. O caminho para a minha partida estava livre, e não havia ninguém para lamentarme. Minha figura era hedionda e minha estatura, formidável. Que significava isso? De onde viera eu? Qual o meu destino? Tais perguntas ocorriam-me com freqüência e permaneciam como um enigma indecifrável.”
E por “enigma indecifrável” a criatura quer dizer que não sabe se, um dia, vai pertencer ao mundo como os seres humanos pertencem.
Mas ele reconhece que existe entre eles.
Leio, logo existo. Leio, logo sou humano.
E ler é um ato tão poderoso que enquanto fazia a minha primeira leitura de Frankenstein, me surpreendi ao reconhecer partes minhas como leitora na criatura que Victor criou.
Ser leitora, pra mim, sempre foi, assim como para o monstro de Frankenstein, um ato de observar, mais do que simplesmente ler.
A leitura é uma forma silenciosa de observar a vida dos outros para entender a nossa. Mesmo que seja ficção. Aliás, principalmente quando é ficção.
Na própria leitura da obra de Mary Shelley, a criatura observava uma família enquanto eu observava o personagens. Ambos estávamos tentando decifrar como se vive e o significa viver.
Essa é a experiência literária que vivenciamos cada vez que estamos com um livros nas mãos. Nas palavras do grandioso José Saramago, os livros não mudam o mundo, mas as pessoas que leem eles, sim. Então, a leitura tem o seu valor. Ela pode não nos ensinar exatamente como viver, mas nos mostra, em fragmentos, as muitas formas possíveis de existir.
Ler e ter contato com histórias traz sentido pra vida. Ao mesmo tempo que reforça alguns pensamentos, desconstrói outros.
A última coisa que esperava lendo uma ficção gótica clássica era reconhecer e me identificar com uma criatura irreal e fictícia. Mas não vejo outra forma disso acontecer, pois ler é aprender constantemente, engrandecer a alma, como dizia Voltaire, e, principalmente, sentir.
Aliás, são os sentimentos e as emoções que também nos tornam humanos ou, pelo menos, nos lembram da nossa humanidade. E isso desperta empatia. Às vezes, da forma mais inusitada, como foi minha experiência com Mary Shelley, que me fez ter empatia por uma criatura considerada monstruosa.
E isso me fez lembrar: na primeira edição de ‘Amora no papel’, escrevi sobre livros que não confortam, mas sim nos confrontam. E Frankenstein fez os dois comigo. Me senti confortada, porque até mesmo uma criatura monstruosa, que sabe ler, acessa sua parte humana e vulnerável lendo livros e conhecendo histórias. E me senti confrontada, porque antes de conhecer a história da criatura, achava a obra era apenas uma criação selvagem.
Mas ela é mais que isso. Mary Shelley escreveu sobre um monstro que, pra mim, é um selvagem, sim, mas também um leitor. Guiado pela curiosidade e pela observação, ele forma suas primeiras opiniões e percepções de mundo ao lado de pessoas que vivem uma vida simples e familiar e, também, dos livros.
Lendo, ele conhece o mundo e a si próprio. Isso por si só é significativo. A sua parte monstruosa vem do abandono que sofreu. E são os livros que o ajudam a conhecer partes novas. Um livro se abre em sua frente e a luz entra em cada cicatriz dos seus remendos. Ele começa a ler e quer entender mais do que é ser e sentir.
Palavras. Histórias. Livros.
Se não fossem eles, a vida seria completamente diferente. Aliás, vida não existiria.E os livros, por mais diferentes que sejam, ressoam de forma única em cada um de nós.
Com o clássico de Mary Shelley eu aprendi que somos, com o tempo, um pedaço de cada história que finalizamos.
Se a criatura de Frankenstein é remendada de outro corpos, quem lê é remendado pelos livros que acumula ao longo da vida. E espero continuar vivendo assim, com a cabeça baixa para apreciar um bom livro e tendo minhas próprias cicatrizes, visíveis e não visíveis, assim como as do monstro, sendo curada por histórias.
Fotos: Frankenstein, Netflix (2025). Ilustrações: Pinterest. Colagem feita com Canva.
Todo tipo de arte é uma forma de humanidade.
Depois de ler Frankenstein, Mary Shelley se tornou mais uma das autoras que me impressiona com sua maneira de ver o mundo e de se expressar através da arte.
Pensando em mais artistas que me fazem sentir o mesmo, Kim Namjoon, líder do BTS, me veio à cabeça.
Ele é um grande apaixonado por expressões artísticas. Estejam elas em páginas, em palavras, em uma tela de pintura ou em esculturas e até mesmo em instrumentos musicais, ele é um eterno curioso quando o assunto é arte.
Foi esse traço da sua personalidade que fez o termo ‘namjooning’ nascer.
‘Namjooning’ é um verbo, logo, uma ação. É um convite para fazer atividades que te tragam paz, como visitar museus, apreciar a natureza, andar de bicicleta, ler e caminhar no parque; todas atividades que o próprio Namjoon pratica no tempo livre, quando ele não está em um estúdio ou em um palco.
Quem é fã do Bangtan (BTS), assim como eu, já deve conhecer este termo, que descreve o ato de viver como Namjoon.
Em uma entrevista recente para a The Rolling Stone, ele diz:
“Acho que simplesmente — a vida é divertida e viver é melhor.”
Então, as indicações musicais de hoje são canções escritas por Kim Namjoon, o idol que me ensina sobre a arte, sobre os sentimentos e sobre tentar ser uma pessoa melhor dia após dia.
Como ele mesmo canta em Bicycle, “os milagres não estão distantes, as coisas verdadeiramente preciosas são aquelas que você não pode ver.” Tenho certeza que o monstro de Frankenstein se confortaria com essas palavras também, que podem não ter saído de um livro, mas são um pedaço de arte.
RM - Around the world in a day (feat. Moses Sumney) 🌎
🌳 Debaixo do pé de amora
Frankenstein foi lançado em 1818. São mais de duzentos anos desde que a história foi publicada, e o livro, que está entre as 100 obras literárias que mudaram o mundo, segundo a BBC, tem um tanto de curiosidades que eu não pude deixar de compilar pro momento debaixo do pé de amora.
1ª curiosidade: A concepção da história por Mary Shelley
A autora escreveu essa história macabra, trágica e com toques de terror, apesar de falar sobre muitas questões humanas e sociais, após um desafio de Lord Byron, poeta e amigo de Shelley, para criar uma história de fantasmas durante o "ano sem verão" de 1816, na Suíça.
Inspirada por um sonho/visão de um estudante dando vida a um monstro, conversas científicas sobre galvanismo e seu próprio contexto de luto e abandono, ela concebeu a obra na Villa Diodati.
Esse contexto se encontra no prefácio do livro, mas recomendo muito a leitura dessa matéria aqui da UFRB, que conta toda a história por trás do processo de escrita de Mary Shelley dando vida ao Frankenstein, que, sim, mudou o mundo.
2ª curiosidade: Frankenstein nas telas
O cinema não perdeu a oportunidade de adaptar esse clássico. Desde 1915, Frankenstein é adaptado pro audiovisual. Nem sempre a história é fiel. Às vezes, somente o monstro remendado, que leva o título de Frankenstein, aparece, carregando mitos que reforçam somente o lado macabro da criatura.
São centenas de adaptações, uma lista longa, sendo uma das obras mais adaptadas da história, indo de clássicos de terror a comédias e releituras modernas.
3ª curiosidade: a releitura de Guilherme Del Toro
Uma das únicas adaptações que vi de Frankenstein até agora foi a do ano passado, dirigida por Guillermo Del Toro, para a Netflix. Inclusive, foi depois de ver o filme que precisei ler o livro. Geralmente, pra leitores, o caminho é o contrário, mas dessa vez, funcionou diferente pra mim.
As cenas em que a criatura esteve no casebre e teve contato com o velho cego e com as histórias de livros me surpreendeu muito. Fiquei curiosa para entender se estava fiel à obra original. E, sim, estava! Agora, depois de ler o livro, amo ainda mais o filme.
Inclusive, a frase final na adaptação da Netflix, é de Lord Byron, a pessoa que plantou a primeira semente para Mary Shelley escrever a obra.
“E assim o coração há de se partir. Mas, partido, ainda viverá”
4ª curiosidade: Origem da imagem popular do monstro
A imagem do monstro verde, com parafusos no pescoço e movimentos travados, foi criada pelo ator Boris Karloff no filme de 1931.
Na obra de Mary Shelley, a original, Frankenstein nem mesmo é a criatura. Foram as adaptações do cinema que, ao fazerem versões apenas com o monstro, deram o nome de Frankenstein, sobrenome do criador, Victor Frankenstein, para o monstro.
5ª curiosidade - A que não está relacionada à obra de Shelley, mas vale a pena saber
Em 23 de abril de 1995 a UNESCO instituiu esta data como o Dia do Livro, por ser o dia do falecimento de grandes autores da literatura mundial, principalmente William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Vega.
O dia simboliza, portanto, a valorização da leitura, dos autores e dos direitos autorais, nos lembrando da companhia única que um livro nos faz sentir.
Desejo que, além de nos acompanhar, sejamos cada vez mais curados e remendados pelos livros, pois ler nos torna humanos.
Se você tem um livro preferido, vou adorar saber aqui nos comentários.
Até a próxima colheita!
Prometo não pecar na demora.
Um beijo da Amora! 🪻💜





Eu sempre amo te ler, Moara. Amei essa analogia.
Realmente nós somos o resultado dos livros que consumimos. Tem frase que vira cicatriz, livro que encaixa uma parte da gente que antes parecia solta e autor que muda silenciosamente nossa forma de olhar o mundo ♥️
Obrigada por mais uma matéria compartilhada aqui! Foi isso que senti ao ler seu post dessa vez.
Aprendi algumas coisas ao ler:
* Que o Frankenstein, na verdade, é o criador e não a criatura.
* Que a autora tinha apenas 18 anos — incrível isso.
* Que existe um verbo do BTS que tenho praticado em minha vida.
* Que o Dia do Livro é uma homenagem à morte de autores importantes da literatura.
Gostei de pensar sobre a obra. Nunca me interessei pelo assunto, mas, pela sua escrita, vejo que pode ser interessante a reflexão que o livro/filme pode trazer, se for fiel à obra.
A pergunta que fica é: o que nos torna humanos?
Entendo que a grande diferença dos humanos para a criatura de Frankenstein seja a inexistência da alma, da chama da vida, igual ao O Homem Bicentenário. Acho que eles vão aprendendo a ter comportamentos humanos, mas, de fato, nunca o serão.
Mas, ao mesmo tempo, vemos atitudes de humanos que nem um bicho faria, e é exatamente isso que demonstra a complexidade da psique humana: dentro de nós habita tanto o monstro, o predador natural, quanto o seu oposto, que nos traz sentimentos como empatia e gentileza no dia a dia. Mas não somos um ou outro; somos os dois, e tudo depende de quão conscientes estamos para deixar florescer um ou o outro.
Muito bom como você trouxe as curiosidades; isso traz à tona seu lado jornalístico.
E, para me despedir, trago a parte que achei bem profunda: “E espero continuar vivendo assim, com a cabeça baixa para apreciar um bom livro e tendo minhas próprias cicatrizes, visíveis e não visíveis, assim como as do monstro, sendo curada por histórias.” Entendo que compartilhar é ir se curando pela vida, nomear cicatrizes nos faz entender quem somos e ao nomear tirarmos de nós o que não nós pertence.